segunda-feira, 14 de abril de 2008

Salário e qualidade dos professores

Gustavo Ioschpe Veja online 14/04/2008
Economista, especialista em educação E-mail: gustavo.ioschpe@gmail.com

Sempre que falamos aqui ou nas páginas da revista da pesquisa empírica que revela não haver relação entre os salários do professor e a qualidade do ensino que ministram, medido pelo desempenho de alunos em testes nacionais e internacionais, surge uma contestação válida (dentre os muitos xingamentos): talvez não haja relação entre os professores atuais, mas um aumento salarial seria indispensável para atrair profissionais mais qualificados para a carreira do magistério.


No Brasil, não há evidência que apóie essa hipótese. O único estudo que eu conheço que trata do tema no Brasil, de Naercio Menezes-Filho e Elaine Pazello, demonstra que na maioria dos casos o salário não tem efeito na rede pública e que, quando ele aparece de maneira significativa – apenas quando se compara o salário de professores da mesma cidade, mas de redes de ensino diferentes (estadual vs. municipal) - nota-se que os professores mais jovens que têm salários mais altos têm desempenho melhor. Não é possível dizer, portanto, se o efeito se deve ao salário ou à juventude dos professores. Se fosse o salário, seria de se esperar que pessoas de mais idade, e não apenas os jovens, se sentissem atraídos a ir para a carreira de professor.


Acabo de voltar de um seminário em El Salvador em que o tema foi discutido em relação à América Latina como um todo – nossos problemas são bastante parecidos em todo o continente, ainda que o Brasil esteja em posição pior do que a esperada por seu nível de desenvolvimento. Um dos papers apresentados, de Daniel Ortega, tratava especificamente dessa questão, retratando o caso da Venezuela. Lá, há um exame nacional para ingresso no ensino superior, onde cada aluno deve escolher três opções de carreira. É possível consultar os dados de desempenho dos alunos e comparar com as carreiras que escolhem, bem como cruzar esses dados com os salários de professores por estado. A pergunta que ele busca responder é: nos lugares de maior salário de professor, aumenta o número de pessoas mais qualificadas (que tiram notas melhores no exame nacional) que procuram a carreira do magistério? A resposta, como pode se ver, é negativa.


Seria interessante replicar essa mesma metodologia para o Brasil, talvez com os dados do Enem ou, melhor ainda, da última série do SAEB. Seria necessário adicionar a esses testes uma pergunta sobre a carreira que o candidato pretende seguir. Fica a idéia.

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